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retalhos de sonhos

retalhos de sonhos

a nossa história chega ao fim

Tomás olhou para ela. Sara tinha uma mágoa tão grande reflectida no seu olhar. Estava triste e cansada. Cansada de viver com medo. Cansada de viver prisioneira do seu destino. Do destino que ela própria tinha escolhido.

- Tudo começou na faculdade. À noite ia com as minhas colegas para o café. Brincávamos imenso. Sabes como é que é a vida de estudante... Numa dessas noites conheci um rapaz fantástico. Porte atlético, moreno, lindo mesmo. Fiquei toda vaidosa, porque no meio de todas nós, e tinha colegas bem bonitas, ele reparou em mim. Dirigiu-se a mim e perguntou-me se queria tomar alguma coisa com ele. Aceitei e a noite acabou no jardim perto da casa onde morava. Conversámos imenso e marcámos encontro para o dia seguinte depois das aulas. (Geny )

Fomos ao cinema e depois demos uma volta pelo shoping . Passamos por algumas lojas de roupa um pouco mais cara e ele entrou. Comprou umas calças e outras peças e disse-me para escolher qualquer coisa que ele pagava. Claro que respondi que não, conhecíamo-nos à dois dias e nunca fui de explorar ninguém. Mas ele insistiu e referiu que dinheiro não era problema dele e que iria ficar muito triste comigo se não aceitasse a oferta dele. Comprei um vestido muito simples que gostei imenso. Depois fomos beber um café e começou então uma conversa de ilusão. Perguntou-me se não queria arranjar um emprego fora das aulas, porque ele também tinha um e conhecia gente importante que facilmente me arranjava um emprego bastante lucrativo. Logicamente que o dinheiro me fazia bastante jeito. Perguntei-lhe que tipo de emprego é que ele tinha onde me respondeu que era muito fácil bastava ir com gente importante a reuniões, porque as senhoras que ele acompanhava eram muito ricas e não gostavam de fazer negócios sozinhas. Como foi fácil iludir-me. Estudante, com pouco dinheiro e o trabalho não era difícil disse-lhe logo que talvez fosse interessante experimentar. A partir daqui foi um desenrolar de mentiras até que cheguei a um clube de streaper. As minhas colegas da faculdade já estavam um pouco desconfiadas, porque comecei a comprar coisas  de marca, mas eu tinha vergonha de contar a verdade e não sabia como voltar atrás. Já me sentia a afundar. Deixei de ser acompanhante, porque um dia ouvi uma conversa que supostamente não devia e esse cliente bateu-me.

- Nessa altura não fizeste queixa dele? Não foi o suficiente para teres medo e pôr um ponto final nessa vida? - perguntou Tomás que a escutava com muita atenção, num misto de revolta e dor ao saber dos pormenores da vida de Sara.

- Fiz, mas estas pessoas são influentes. E habituei-me a abrir a carteira e ter dinheiro para comprar o que queria. Já sei o que deves estar a pensar de mim...

- Sara...eu não sou ninguém para te julgar. Já basta a tua consciência. Mas porque é que fugiste? Podias ter pedido ajuda...Eu estava ali mesmo ao teu lado.

- Sabes um dia passei por aqui e comprei aquela casinha. Gosto tanto deste sítio. Pensava que conseguia afastar-me de tudo e esquecer...Mas não sei como ele descobriu-me e mandou aquelas fotos do clube onde eu trabalhava. Estou cansada. Quero ser livre! (Geny)

 

Tomás era um tipo algo franzino e nada dado a cenas de hollywood. Nunca se tinha imaginado a fazer o papel do herói…. No entanto teve um instinto saído sabe-se lá de onde e decidiu fazer frente à situação…

Sara ficou surpreendida pela forma como Tomás resolveu o assunto. Nunca tinha visto nos seus efémeros namorados tamanha demonstração de coragem... e conhecia o Tomás há apenas uns dias…

Passaram meses e uma viagem até que Sara deixou finalmente de ter vergonha do passado. Para isso muito contribuiu o apoio de Tomás - “Decisões, boas ou más, toda a gente as tem que tomar… e tu tomaste as tuas” – disse-lhe vezes sem conta.

Mas a experiência deixou marcas... sentiu necessidade de se afastar. Já tinha, no passado, sentido esta mesma atracção. Conhecer o mundo para esquecer. Fora uma decisão natural mas que deixaria Tomás fora se si...

De inicio não revelou a ninguém o desejo que a atormentava…Sara nem sabia para onde ir nem por quanto tempo…ainda por cima na altura estava sem dinheiro. Só sabia que precisava de sair... Passado pouco tempo, alguém lhe mostrou um artigo sobre voluntariado. Fez-se luz.

A candidatura e o processo de selecção foram um pequeno calvário, entrevista e mais entrevista... a sua aparência frágil não ajuda a convencer alguém que tem que decidir quem enviar para uma região de crise.

Sara tinha escolhido um pais da América latina. Fosse qualquer o destino teria sempre que enfrentar a pressão de lidar com as emoções ao encarar realidades bem diferentes daquelas a que estamos habituados.

Foi num domingo que lhe contou a sua decisão. Tomás não percebia a contradição entre o sorriso nos lábios e as lágrimas nos olhos…entre este momento e a despedida no aeroporto foi um abrir e fechar de olhos. Tomás nem chegou a mentalizar-se.

Sara ainda hoje não sabe como foi escolhida para aquela campanha de vacinação no Chile. Seis meses. Foi logo à chegada que conheceu Christophe médico Francês voluntário da CV... ele era alguém que transpirava VIDA e ajudou Sara viver um sonho... um sonho visto pelos seus belos olhos verdes...a viagem fê-la crescer e esquecer um passado que tardava a riscar da memória…

Era Março, fim de verão no hemisfério Sul mas a primavera despontava aqui na Europa…era hora de voltar. Ela ficou triste por deixar a equipa e aquele belo país mas sabia que tinha Tomás à espera de braços abertos….e já sentia saudades de casa. (Noche)
Chegada ao aeroporto, aquela confusão de sempre, pessoas a chegar e a partir. Sara dirigiu-se ao depósito das malas para levantar a sua bagagem. De repente ouve nos altifalantes do aeroporto a chamarem por si, para se dirigir à porta de entrada o mais rápido possível.
- Meu Deus! Não é possível! Como é que souberam que eu chegava exactamente agora? Será que me seguiram?
Sara dirigiu-se para a porta de entrada com bastante receio quando de repente ve a imagem mais linda que alguma vez sonhou ver.
Tomás estava à porta do aeroporto. Trazia o mais lindo ramo de rosas na mão e Jim estava ao lado dele com uma laço enorme ao pescoço. 
Ficou parada a olhar para eles. Era uma sensação de paz, uma sensação que há muito desejava sentir.
- Bem vinda a casa Sara! Tinhamos tantas saudades tuas.
- Como é que sabias que chegava agora?
- Bem... minha querida...os telefones são para isso mesmo.
Jim já reclamava a atenção de Sara e não parava de saltitar ao lado dela. Sara abraçou-o e era evidente a alegria dele por a ver.
- Sara, eu amo-te! Não tenho palácios para te oferecer, não te prometo felicidade absoluta, mas gostava de viver um dia de cada vez contigo. Construirmos a nossa felicidade hora a hora, sem planos.
- Tomás, eu também te amo. Não te preocupes com coisas materiais. Esta viagem fez-me muito bem, já consigo levantar a minha cabeça e olhar para a frente, e principalmente na tua companhia. Acabaste de me dar o que eu mais queria. Liberdade! (Geny)
 
A nossa história chegou ao fim. Sim, a NOSSA história, porque como sabem lancei este desafio e algumas pessoas foram escrevendo as suas ideias. A todos os que participaram o meu muito obrigada. Obrigada por me darem um pouco do vosso tempo e da vossa imaginação.
Fiquem bem.

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